Foto: Andressa Anholete/STF
Ainda que a defesa de Daniel Vorcaro mantenha ativa negociação com a PGR (Procuradoria-Geral da República) por uma delação premiada, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça segue cético quanto à viabilidade de homologar um acordo que dê benefícios ao ex-banqueiro.
O relator do caso na corte avalia que o fato de a PF (Polícia Federal) ter rejeitado a proposta de delação corrobora o que ele já vinha dizendo desde o princípio da investigação: que dificilmente o dono do Banco Master será capaz de entregar informações adicionais àquelas que já foram obtidas de forma independente pelos investigadores.
Interlocutores do magistrado, responsável pelos casos da operação Compliance Zero no STF, afirmam que o ressarcimento integral dos prejuízos é um requisito inegociável para a homologação, e que um acordo que proponha a devolução menor não pode ser aceito.
Conforme mostrou a Folha de S.Paulo, investigadores querem que Vorcaro restitua, em um curto período, cerca de R$ 60 bilhões. O ex-banqueiro, entretanto, propôs o pagamento de R$ 40 bilhões em dez anos. O valor e o prazo desagradaram integrantes da PF, da PGR e do Supremo.
Quando começaram as tratativas da delação, Mendonça chegou a considerar a possibilidade de, a depender da quantidade e da qualidade das informações prestadas, autorizar a prisão domiciliar para o empresário. Passados dois meses, esse é um cenário praticamente descartado pelo ministro.
O relator lembrou a pessoas próximas que, desde que Vorcaro iniciou as negociações, em 19 de março, houve pelo menos quatro novas fases da Compliance Zero, o que demonstra que a investigação é capaz de “caminhar com as próprias pernas” e que a delação é, na verdade, dispensável.
Também há uma leitura de que a PGR costuma ser mais criteriosa que a PF na hora de firmar acordos de colaboração premiada —sendo assim, se a PF já rejeitou uma proposta, isso pode ser um mau sinal para Vorcaro. Apesar disso, procuradores ainda não descartam a delação, pois avaliam que um caso da dimensão do Master exige mais tempo de análise.
A coluna Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, informou que, desde o início de maio, Mendonça manifestava descontentamento com os rumos da proposta de delação do ex-banqueiro, devido a omissões de conteúdo e tentativas de proteger aliados.
Chamou a atenção o fato de Vorcaro não ter admitido acontecimentos narrados em conversas apreendidas em seus próprios celulares e que já são de conhecimento das autoridades, como a relação e suposta mesada ao presidente do PP, Ciro Nogueira.
Vorcaro, que vão além das tímidas revelações do ex-banqueiro.
Desde a derrocada do Master até o início do processo de delação, Vorcaro vem sustentando ser inocente e vítima de uma perseguição, segundo ele, capitaneada por banqueiros inconformados pela concorrência criada pelo seu banco.
A delação, por definição, pressupõe a assunção de culpa, como primeira etapa.
Pessoas que acompanharam a negociação afirmam, no entanto, que Vorcaro, nos anexos entregues à PF, teria tentado justificar os crimes que cometeu, e não propriamente reconhecido seus erros e os prejuízos causados, por exemplo, aos aposentados, diante das fraudes bilionárias em empréstimos consignados.
Na esfera política, interlocutores do ministro observam que, em um momento de STF dividido, como agora, também devem ser levados em conta os movimentos de cada ala da corte.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, que lidera a PGR, é um nome próximo de Gilmar Mendes, integrante do grupo adversário de Mendonça no STF. O relator, por sua vez, durante o processo de delação, se tornou mais próximo da Polícia Federal, que neste momento tem uma visão diferente da PGR sobre a negociação com Vorcaro.
Não passou despercebido ainda um episódio comentado nos bastidores políticos de Brasília: um encontro entre o advogado de Daniel Vorcaro, o criminalista José Luís de Oliveira Lima, o Juca, com Floriano de Azevedo Marques Neto, membro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e próximo a Alexandre de Moraes, outro integrante do grupo de Gilmar Mendes e oposto ao de Mendonça.
Relatos também dão conta de que os diálogos entre Juca e Mendonça também se tornaram escassos desde que os dois travaram uma conversa ríspida, no início do mês, sobre a apreciação de um pedido de soltura de Vorcaro.
Contribui ainda a diferença pessoal entre os dois. Vorcaro é tratado como uma figura exótica, que gostava de exibir os contatos com pessoas influentes em ambientes luxuosos e festas, o oposto de Mendonça, que chegou ao Supremo com o apoio de evangélicos e que ainda hoje faz as vezes de pastor da Igreja Presbiteriana.
Fonte: Bahia Noticias

